segunda-feira, 25 de março de 2013

À sombra do herói

Achei muito interessante este artigo de  Flávio Cordeiro, publicado em Mulher 7 X 7, e decidi compartilhar:



Na minha época de adolescente, eu adorava escutar “Química” da Legião Urbana. Os versos diziam que passar no vestibular era a senha para se tornar “responsável, cristão convicto, cidadão modelo e burguês padrão”. De fato, passamos boa parte da vida sendo estimulados a “passar no vestibular” – real e metaforicamente. A seguir modelos e padrões.
O mundo dos heróis é repleto dessas “forminhas”. Heróis são os superstars de nossa sociedade: eles compensam nossas fraquezas, nossas inapetências, nosso egoísmo e nossa pequenez. Como se sabe, heróis não são criaturas humanas, são semi-deuses: filhos de divindades com mortais. Teríamos então todo o direito de nos sentir um pouco intimidados diante de tanta perfeição. Diante de um herói, como admitir que não sacamos nada de física, literatura ou gramática?
Como não lembrar do herói e corredor sul africano Oscar Pistorius, que assassinou a namorada e alegou tê-la confundido com um ladrão? Ou Lance Amstrong, o tantas vezes vencedor do Tour de France e campeão na luta contra o câncer, desmascarado recentemente por uso e distribuição de doping? Ou da lenda do esporte americano O.J Simpson, absolvido do assassinato da mulher por uma tecnicalidade jurídica?  Como não lembrar do campeão da moralidade na política, que perdeu o mandato após a revelação de relações criminosas com o jogo do Bicho? Como não desconfiar de que na circunferência os extremos se aproximam?
Desconfio, estimulado por Heráclito, de todo homem-santo, de todo “herói semideus”, de todo dono da verdade, de todo cidadão-modelo e burguês padrão; desconfio de casamentos sem rusgas, de gente que não envelhece nunca, de namorados e namoradas ideais.
Precisaremos de heróis e semideuses enquanto julgarmos que a tarefa de viver é superior à nossa capacidade aguentar a vida como ela é. Mas o único ato heroico, a única aventura, é viver a nossa jornada pessoal, passando ou não no vestibular, caindo, levantando, ajudando e sendo ajudado a levantar. E então, aos poucos, quem sabe, seremos capazes de criar as nossas próprias “forminhas” – adequadas aos nossos sonhos e às nossas aspirações. Nietzsche usava uma expressão para se referir ao amor incondicional à vida do jeito que ela nos é dada: o amor fati – o amor incondicional às coisas como elas são e não como idealmente “deveriam” ser.
Então, meus amigos e amigas, desejo a todos muito amor fati! E cuidado com os “heróis-demais” !
(Este post é dedicado à mestra Dulcinéa Monteiro – que ensina Amor Fati na teoria e na prática.)

* Flávio Cordeiro, carioca, é publicitário.

Culpa e Perdão



Há diferentes motivos para nos sentirmos culpados por algo ou arrependidos de alguma coisa: um erro cometido, uma norma transgredida, uma decisão equivocada e até uma negligencia ou omissão.
O sentimento de culpa e o arrependimento fazem parte de nossas vidas. É natural e racional que analisemos o que se passou e, nessa reflexão, constatemos que não agimos da melhor maneira. E a consequência lógica é um sentimento de culpa ou arrependimento.
Mas essa sensação de culpa, ou de arrependimento, não pode ser exagerada. O fato de nos sentirmos culpados por algo, mesmo que grave, não pode nos intimidar, nos colocar em processo angustioso e traumático a ponto de nos paralisar. Não entremos no círculo vicioso em que acalentamos a culpa e o arrependimento, revivendo o problema, o que realimenta a culpa e o arrependimento e assim por diante. É o complexo de culpa, do qual ficamos sem saída e, ainda, atraímos companhias espirituais negativas.
A culpa e o arrependimento na medida justa são importantes para que aprendamos com os erros. Mas, o problema, como Freud constatou, é que a gente se culpa mais do que é necessário, na citação de Contardo Calligaris. (1)
É interessante observar que, no Direito Penal, o adjetivo culposo se refere a um ato criminoso não intencional, em contraposição a doloso, no qual há a intenção ou o dolo. No meio jurídico, ter culpa por um ato ilícito é menos grave do que ter tido a intenção de praticá-lo.
No dia a dia, pedir desculpas é uma demonstração de gentileza. Lembrando que a palavra desculpar tem o significado literal de retirar a culpa, sejamos pródigos em desculpar.
Outro aspecto relevante do Direito Penal é a consideração de que criminosas são as condutas, não as pessoas. Por isso, o Código Penal Brasileiro, em sua Parte Especial, tipifica as ações criminosas, não os agentes. No caput do artigo 121, por exemplo, temos o homicídio simples: “matar alguém”.
Criminosos são os atos, nunca os sujeitos, declara Contardo Calligaris (2), e acrescenta:
Na hora de julgar, no tribunal ou no foro íntimo, o que importa é saber se o ato de Fulano é um crime; a pessoa Fulano é sem interesse.
Muitas vezes cometemos o equívoco de não nos ater aos fatos e, por isso, tratamos as pessoas com muita agressividade, proferindo julgamentos precipitados. É o que ocorre, por exemplo, quando temos a desagradável missão de cobrar uma dívida de alguém. Em vez de nos restringir ao fato, “você ainda não pagou”, disparamos um conceito condenatório:
- Você é desonesto!
E aí a discussão descamba de vez. Novamente, ficamos a mercê das influenciações de espíritos que se comprazem com desavenças.
Fazer a distinção entre a conduta e a pessoa constitui um dos postulados básicos do CVV, o Centro de Valorização da Vida. Os plantonistas são orientados a proceder desse modo, durante os atendimentos. Por exemplo, podem e devem ser contra o consumo da droga, mas jamais contra o drogado.
Tal postura dá margem a melhorar os nossos relacionamentos na família, no trabalho etc., pois nos permite querer bem pessoas que têm condutas das quais não gostamos. Ela também explica o amor incondicional de mães e pais, que, mesmo diante de condutas reprováveis dos filhos, não deixam de adorá-los. Até quando têm que impor limites aos filhos, o amor dos pais continua o mesmo, enorme. É a perfeita aplicação prática do postulado bíblico.
O amor cobre a multidão de pecados. (3)
Como pais, já sabemos exercitar o amor que cobre a multidão de pecados de nossos filhos. Busquemos levar esse mesmo amor grandioso para os outros relacionamentos que a vida nos oferece. Em conseqüência, estaremos abrindo sintonia com espíritos benfeitores.
Esse tipo de amor é que possibilita praticar o verdadeiro perdão. Quando perdoamos apenas da boca para fora, precisaremos perdoar de novo. É assim que compreendemos o ensinamento cristão sobre a quantidade de vezes que devemos perdoar:
Setenta vezes sete vezes. (4)
Logo, enquanto não chegarmos ao perdão verdadeiro, não poderemos parar de perdoar.
O perdão traz alívio, liberta. Sem ele, alimentamos o rancor, o ódio, o que nos traz prejuízos emocionais e até físicos, agravado pelas más companhias espirituais que se identificam com esse comportamento. Isso justifica a urgência de aprender a exercitar o perdão de verdade.
Ademais, não vale a pena manter desafetos. Se foi impossível evitar o início de uma inimizade, busquemos a reconciliação ou, pelo menos, estejamos prontos para isso quando a ocasião se apresentar. Não desperdicemos oportunidades valiosas de eliminar desavenças.
Portanto, é importante que não nos culpemos em demasia, até para que seja possível dar atenção total ao próximo ponto, conforme o achado filosófico do tênis. Aprendamos também a praticar o verdadeiro perdão, porque além de condutas de que não gostamos ou não aceitamos, há seres humanos desejosos da nossa benevolência.

(1) Somos culpados, mas de quê? Folha de São Paulo 19/4/2007.
(2) Confusões morais perigosas. Folha de São Paulo 21/9/2006.
(3) I Pedro, 4:8.
(4) Mateus, 18:21-22.

Autor: José Carlos A. Cintra

Fonte:
Livro: Viva a Vida!

domingo, 24 de março de 2013

Sentimento de posse cabe na amizade?

Mônica El Bayeh
O Twitter fervia , a tensão pairava no ar. Várias meninas disputavam uma mesma amiga numa briga um tanto delicada. Um duelo de teclados. Afirmavam todas que eram, sim, “A” preferida.
Fiquei surpresa. Nunca tive dessas coragens. Nunca a ousadia de afirmar assim abertamente ser A preferida, nem ao menos de perguntar se era! Vai que a criatura desmentisse, negasse…Eu ficava como? Sempre me mantive discreta, neutra nessas coisas de preferência. Nada de politicamente correto. Medo de passar vergonha mesmo.
Ser a preferida é um sonho acalentado por muitas, um secreto desejo – ainda que a maioria desconverse. Agora, além de tudo ainda tem nome chique, importado. BF, best friend (melhor amiga). BFF, Best Friend Forever (melhor amiga para sempre). O termo é sofisticado. O objetivo, meio podre. Classifica umas e exclui outras, tão boas quanto. Deixa um rastro de destruição no seu encalço.
Fiquei com pena. A maior riqueza da amizade é justamente a leveza de poder ser bobo, natural, falar o que vem à cabeça e poder ser de muitos. Amigos podem, sim, ao contrário das regras amorosas ocidentais, ser de muitos. E todos juntos, sinônimo de diversão garantida.
Ficou importante ser a melhor, The Best. A mais querida, a melhor de todas, a grande eleita. Saímos da permissividade feliz que a amizade proporciona. Entramos na seara da exclusividade e do ciúme tão típica e dolorosa dos namoros e casamentos.
O que antes era pique-pega descontraído agora virou Fórmula1. Tem rankings e pódio. Isso não me cheira bem. Prevejo chuvas e tempestades no Twitter, no Facebook e, pior, na alma de muitas.
Quem tem amigos sabe. Cada um tem seu jeito, cada um sua maneira. Uns servem mais para a gente rir junto e muito e de tudo. Outros servem para boa parceria de trabalho. Tem aqueles que você ama, pensa parecido. Os que adivinham quando você está mal e te ligam por intuição, depois de um tempão afastados. Os que você chora junto. E aquele que te leva à cartomante, escondido dos outros todos.
Tem um melhor? Depende do objetivo, depende do momento, depende do dia. Até porque todo mundo tem seu dia de azedo. E, nesses dias, é prudente ter opção. Uns que servem para tudo? Tem também. Mas nem por isso se assina exclusividade. Todos eles deixam a vida mais animada. A soma de todos dá recheio a sua história. São personagens importantes das suas aventuras e desventuras. Todos queridos, cada um do seu jeito.
Fico muito surpresa com essas demonstrações de domínio alheio. E já assisti a muito mais cenas desse tipo do que gostaria. Outro dia, passei por duas moças que se estranhavam. Estavam a um palmo de distância uma da outra. Separadas apenas por um degrau baixo, gritavam. Nem precisava, estavam tão próximas, que mais um pouco se beijavam na boca. Mas gritavam mesmo assim. Virou moda tirar satisfação, ameaçar bater na outra, pegar quem dá em cima. A mais alta, braço esticado, dedo em riste girando nervoso, afirmava com um balanço lateral de corpo e cabeça que o homem era dela.
Como assim o homem era dela? Sou casada há vários anos e não me considero dona do homem que mora comigo. Ele está meu, provisoriamente. Tem até durado bastante, já faz um tempo e ele continua por aqui ainda. Mas meu? Não. Posso, no máximo, dizer que ele está meu marido. Estar casado é verbo de transição. A qualquer momento, pode mudar. Tipo operadora de celular. O sinal começa a falhar, surgem ruídos na comunicação. Você fala, mas não ouve o retorno, as mensagens não chegam. O grau de satisfação é baixo, o SAC não se comove com a sua aflição. As outras operadoras seduzem com vantagens… É batata: portabilidade.
A aliança de amizade, de respeito, de fidelidade e de desejo é entre o casal. Se alguém quer o seu namorado ou marido, pode tentar conseguir, tem esse direito. Claro que vai dar raiva, ódio. Você vai desejar coisas bem dolorosas para os dois safados. Mas, de verdade, a traição não é da outra pessoa. É de quem tem o compromisso firmado com você.
A outra não tem acordo com você. Ela está correndo atrás de um par, calhou de gostar do seu. Veja só que coincidência, vocês têm o mesmo gosto! É ao seu parceiro que cabe se posicionar. O que ele vai fazer? O que você vai decidir? Em coisas de amor, sempre há muitas soluções. Amor é criativo, sinuoso, cria atalhos e caminhos. Não estou aqui para julgar. Pode dispensar a outra porque está com você. Pode ir embora para a outra! Portabilidade!
Também, convenhamos: segurar cliente insatisfeito para que? Reavalia a qualidade dos serviços prestados e melhora ou deixa ir e torce para ele ver que a outra operadora não é nada do que prometia. Propaganda enganosa, ficou pior servido? Bem feito! Você está vingada!
Não me sinto dona de ninguém. Abrindo aqui meu coração, acho até que gostaria de ter essas certezas. Bater no peito, dizer que é meu e pronto. Mas me conformo, pensando que quem acha mesmo que é seu não precisa de explosões desse tipo. Você sabe quando é querida, sente e isso acalma.
Penso que, ao contrário do que se imagina ou gostaria, gente não tem dono. Tenho dois filhos. Saíram de dentro de mim. Cresceram nas minhas entranhas. Fui morada, carreguei nove meses. Tinha horas que ficava meio desconfortável, a quitinete já visivelmente pequena para nós dois. Fiz do meu corpo alimento, me doei. Eles são prioridade absoluta. Invisto neles, alegre, orçamento, tempo vago e energia. Isso me faz dona? Nada disso me faz dona dessas duas já nem tão pequenas criaturas. Tento ser íntima, próxima, querida, enlaçar nossas vidas, trançar afetos. Mas dona? Não sou mesmo.
A cada um cabe ser o dono de sua própria vida, a mais ninguém. Vai testar, experimentar, cair, quebrar a cara. Faz parte. Ver o ser amado sofrer dói na gente, dói na carne. Melhor que fosse com a gente? Claro. Mas é a vez deles. O que se faz?
Se reza para que voltem vivos e em paz, para que enxerguem melhor do que a gente fazia nessa idade. Se avisa, reclama, dá palpite, torce, lamenta. E, mesmo tendo feito tudo isso em vão, fica por perto para socorrer quando voltarem magoados. Vida magoa mesmo, mas fortalece também.
Assim a vida da gente segue se entrelaçando com várias outras. Uns laços são fraquinhos, outros são frouxos. Outros lindos, de presente de loja chique daqueles que perfumam o armário onde são guardados. Amigos constroem e perfumam nosso caminho. Deixam suas marcas, lembranças, esquisitices, histórias. A gente se liga e desliga como jogo de Lego. E forma lindas figuras. Ou não. Uma peça de Lego só constrói quando unida às outras. Todas juntas e diferentes. Cada uma com sua cor, seu formato. E todas necessárias para continuar a brincadeira.

* Mônica El Bayeh, carioca, é psicóloga.
Publicado em Mulher 7 X 7

sexta-feira, 22 de março de 2013

O lazer que nos falta


             Há uma lei da natureza que nos ajusta perfeitamente na relação com o trabalho. Essa lei se chama Lei do Repouso. Existe. Existe uma Lei do Repouso. Lei Divina.
            Uma vez que Deus nos deu um corpo físico, capaz de sofrer com o passar do tempo, capaz de se esgotar com as nossas atividades mais densas, mais rústicas, ou com o passar do tempo, Ele nos dotou de recursos de recomposição desse corpo.
            Mas, para que esses recursos de recomposição se estabeleçam e deem frutos, será preciso que  colaboremos para isso.
            A Lei do Repouso, que  encontramos num livro muito interessante, que é O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, esse trabalho que Deus deseja que a gente realize, tem como respaldo esse descanso que Ele espera que tenhamos.
            Todas as vezes que trabalhamos excessivamente ou que trabalhamos muito, durante algum tempo, o organismo vai se ressentindo. O desgaste vai nos levando a um estado de cansaço, às vezes de irritabilidade, que fez com que se chamasse internacionalmente de stress.
            Toda aquela atividade feita e que nos causa um certo distendimento, uma certa distensão comportamental, uma coisa que nos exige muito emocionalmente ou psicologicamente, causa um stress. E, hoje em dia, todo mundo tem stress.
            Chamamos de stress a tudo. As pessoas são nervosas, irritadiças, nós dizemos: Que sujeito estressado.
            Passamos a admitir que esse termo tenha caído no lugar comum e que todo mundo usa. E, no nosso trabalho, excessivo, cansativo, ficamos estressados.
            É necessário então, que procuremos uma forma, uma maneira de desfazer esse estado de distensionamento, esse estado estressante. Exatamente por quê? Porque Deus não pretende que trabalhemos até a exaustão.
            Em O Livro dos Espíritos, chegamos a aprender que deveremos trabalhar até o limite das forças. E cada criatura tem o seu limite de forças.
Importante é não nos deixarmos arrastar por essa situação que se torna depois inviável retroceder, porque o corpo adoece. Quando exigimos demasiadamente do nosso organismo, do nosso cérebro, do nosso sistema nervoso, a tendência é que esse organismo sofra, adoeça, se desgaste.
Então, vamos pensar no que poderemos fazer para produzir esse descanso. Vamos pensar naquilo que convencionamos chamar lazer. Afinal de contas, o que é o lazer?
            Para muita gente, lazer é não fazer nada, lazer é parar totalmente, lazer é um descanso sem limites.
            Será que é esta mesmo a proposta do lazer para as nossas vidas na Terra? Será que, para atendermos a essa Lei Divina do descanso, teremos que parar definitivamente? Teremos que interromper definitivamente a nossa atividade, ou poderemos mudar de ação?
            Aprendemos que no Mundo Superior, onde pulsa a Espiritualidade Superior, onde estão os nossos Anjos Guardiães, a sua forma de descansar é mudando de atividade. Mudar de atividade será trabalho no bem.

            E o que é trabalho no bem?
Aprendemos que toda ocupação útil da criatura é um trabalho.
Se estou pensando no bem, se estou fazendo oração, se estou cozinhando, lavando uma peça de roupa, se estou caminhando por um jardim e respirando fundo, se é uma coisa positiva que visa positivismo, é um trabalho no bem, é um trabalho.
            Desse modo, o lazer poderá ser um trabalho. Mas um trabalho que não nos exija, que não nos esfalfe.
           Quanta gente gosta de desenvolver o seu lazer lendo? Existe coisa mais agradável do que uma leitura superior, do que uma leitura gostosa? Uma leitura que nos traga um gracejo, cultura, informação? Uma leitura que nos faça manter contato com pensamentos superiores, é um lazer.
            Há pessoas que passam um fim de semana lendo. Há pessoas que passam um fim de semana cuidando do jardim. Já trabalharam na sua empresa, na sua oficina a semana inteira mas, nos finais de semana, vão fazer o seu lazer, um outro tipo de trabalho.
            Há indivíduos que gostam de consertar coisas em casa, por hobby. Eles gostam de mexer nas instalações,  gostam de cuidar das paredes, das pinturas. É um hobby, é um lazer. Tudo que nos descansa a mente do trabalho renitente, continuado, para sair da mesmice, é lazer.
Encontramos outras pessoas que vão passar o final de semana, por exemplo, os feriados, os feriadões, nas praias, nas casas de campo, nas montanhas e, quando voltam, vemos nas ruas coisas absurdas, nas estradas, porque as pessoas cortam pelo acostamento irritadas, tensas, densas.
            Vemos outros que xingam, que agridem, que dizem impropérios, que fazem maus sinais aos choferes, aos motoristas que estão passando ao seu lado.
            Afinal de contas, essa pessoa conseguiu fazer o seu lazer ou não? Esse indivíduo descansou ou não? Como é que nós poderemos descansar e voltar pior do que fomos?
            Vale pensar no lazer de que temos necessidade. Não temos que sair, por sair, para nos irritar nas estradas, para nos irritar no trânsito. Precisamos sair para relaxar a mente, ou precisamos ficar para relaxar a mente.
            Há senhoras que aproveitam e, para relaxar a mente, vão arrumar gavetas, tirar papéis, mexer em roupas, passar roupas. Há todo tipo de lazer. Há uns que vão ouvir música, outros que vão tocar música. Os nossos lazeres são os mais variados.
            Importante é que haja lucidez no nosso lazer. Porque, ficar parado sem fazer nada, isso tem cheiro de preguiça, e nós estaremos jogando nosso tempo fora, desperdiçando nosso tempo.
Cabe a você, cabe a nós, a todos nós, buscar esse tipo de lazer que nos construa, que nos ilumine, que nos exalte.
            Bater uma bolinha no final de semana, jogar um pingue-pongue, ir para uma quadra de tênis, de vôlei, não importa. Importa é que dessa atividade, nós saiamos em melhor estado.
            Se formos para o futebol, o nosso lazer, o nosso jogo não poderá ser uma coisa estressante. Não poderemos jogar com a outra equipe, querendo ganhar somente e se a outra equipe ganhar, partirmos para a briga, porque isso não terá sido um lazer. Isso terá sido um incômodo, uma agitação, uma excitação.
            Todo esporte deve ser uma coisa agradável. O outro time não é um inimigo nosso, é um adversário no jogo. Adversário não quer dizer inimigo. Adversário é quem está em campo oposto, inimigo é quem se indispõe com o outro.
            O nosso lazer nos esportes deve ser uma coisa agradável. Quando  ganharmos ou quando  perdermos, nos abraçamos, porque o gostoso do esporte é praticar o esporte.
            Quando somos profissionais e aquilo demanda ganho de dinheiro, demanda posição social dentro do clube, encontramos maiores possibilidades desse stress. As pessoas estão disputando dinheiro, posição social, cargos, mas não é o nosso caso.
            O lazer de que precisamos é esse descanso proposto pela Lei de Deus. Descansar mudando de atividade, não parar definitivamente, não passarmos doze horas dormindo, para que o corpo se levante lasso, mais cansado ainda, e nós, irritadíssimos.
            Vamos mudar de atividade, fazer uma coisa do bem. Ouvir música, cantar músicas, ler, caminhar, passear com as pessoas amadas, com a pessoa querida, dando sentido ao nosso descanso.


Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 103, apresentado por
Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.

quarta-feira, 20 de março de 2013

As Duas Gotas de Óleo



            Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou durante muitos dias pelo deserto, até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.
            Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso rapaz entrou numa sala e viu uma intensa atividade; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos quitutes daquela região do mundo.
            O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar por várias horas até chegar sua vez de ser atendido.
            O Sábio ouviu atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo para explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palácio, e voltasse dali a duas horas.
            -Entretanto, quero lhe pedir um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. Enquanto você estiver caminhando, carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.
            O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre seus olhos fixos na colher. Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.
-Então - perguntou-lhe o Sábio - Você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o mestre dos jardineiros demorou dez anos para criar?   Reparou nos belos pergaminhos de minha biblioteca?
            O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada. Sua única preocupação era de não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.
- Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio - Você não pode confiar num homem se não conhece sua casa.
            Já mais tranquilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar.
            De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo o que havia visto.
            -Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? - perguntou o Sábio.
            Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.
            -Pois este é o único conselho que tenho para lhe dar - disse o mais Sábio dos homens.
            - O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, é aproveitar todas as coisas do mundo, mas jamais esquecer de seus objetivos.

Desconheço o autor

terça-feira, 19 de março de 2013

Dias Difíceis



Há dias que parecem não ter sido feitos para ti.

Amontoam-se tantas dificuldades, inúmeras frustrações e incontáveis aborrecimentos, que chegas a pensar que conduzes o globo do mundo sobre os ombros dilacerados.

Desde cedo, ao te ergueres do leito, pela manhã, encontras a indisposição moral do companheiro ou da companheira, que te arremessa todos os espinhos que o mau humor conseguiu acumular ao longo da noite.
Sentes o travo do fel despejado em tua alma, mas crês que tudo se modificará nos momentos seguintes.

Sais à rua, para atender a esse ou aquele compromisso cotidiano, e te defrontas com a agrestia de muitos que manejam veículos nas vias públicas e que os convertem em armas contra os outros; constatas o azedume do funcionário ou do balconista que te atende mal, ou vês o cinismo de negociantes que anseiam por ter entregar produtos de má qualidade a preços exorbitantes, supondo-te imbecil.
Mesmo assim, admites que, logo, tudo se alterará, melhorando as situações em torno.

Encontras-te com familiares ou pessoas amigas que te derramam sobre a mente todo o quadro dos problemas e tragédias que vivenciam, numa enxurrada de tormentos, perturbando a tua harmonia ainda frágil, embora não te permitam desabafar as tuas angústias, teus dramas ou tuas mágoas represadas na alma.
Em tais circunstâncias, pensas que deves aguardar que essas pessoas se resolvam com a vida até um novo encontro.

São esses os dias em que as palavras que dizes recebem negativa interpretação, o carinho que ofereces é mal visto, tua simpatia parece mero interesse, tuas reservas são vistas como soberba ou má vontade.
Se falas, ou se calas, desagradas.

Em dias assim, ainda quando te esforces por entender tudo e a todos, sofres muito e a costumeira tendência, nessas ocasiões , é a da vitimação automática, quando se passa a desenvolver sentimentos de autopiedade.
No entanto, esses dias infelizes pedem-nos vigilância e prece fervorosa, para que não nos percamos nesses cipoais de pensamentos, de sentimentos e de atitudes perturbadores.

São dias de avaliação, de testes impostos pelas regentes leis da vida terrena, desejosas de que te observes e verifiques tuas ações e reações à frente das mais diversas situações da existência.

Quando perceberes que muita coisa à tua volta passa a emitir um som desarmônico aos teus ouvidos; se notares que escolhendo direito ou esquerdo não escapas da ácida crítica, o teu dever será o de te ajustares ao bom senso.
Instruí-te com as situações e acumula o aprendizado das horas, passando a observar bem melhor as circunstâncias que te cercam, para que melhor entendas, para que, enfim, evoluas.

Não te olvides de que ouvimos a voz do Mestre Nazareno, há distanciados dois milênios, a dizer-nos: No mundo só tereis aflições...

Conhecedores dessa realidade, abrindo a alma para compreender que a cada dia basta o seu mal... tratarás de te recompor, caso tenhas te deixado ferir por tantos petardos, quando o ideal teria sido agir como o bambuzal diante da ventania.
Curvar-se, deixar passar o vendaval, a fim de te reergueres com tranquilidade, passado o momento difícil.

Há, de fato, dias difíceis, duros, caracterizando o teu estádio de provações indispensáveis ao teu processo de evolução.
A ti, porém, caberá erguer a fronte buscando o rumo das estrelas formosas, que ao longe brilham, e agradecer a Deus por poderes afrontar tantos e difíceis desafios, mantendo-te firme, mesmo assim.

Nos dias difíceis da tua existência, procura não te entregares ao pessimismo, nem ao lodo do derrotismo, evitando alimentar todo e qualquer sentimento de culpa, que te inspiraram o abandono dos teus compromissos, o que seria teu gesto mais infeliz.
Põe-te de pé, perante quaisquer obstáculos, e sê fiel aos teus labores, aos deveres de aprender, servir e crescer, que te trouxeram novamente ao mundo terrestre.

Se lograres a superação suspirada, nesses dias sombrios para ti, terás vencido mais um embate no rol dos muitos combates que compõem a pauta da guerra em que a Terra se encontra engolfada.

Confia na ação e no poder da luz, que o Cristo representa, e segue com entusiasmo para a conquista de ti mesmo, guardando-te em equilíbrio, seja qual for ou como for cada um dos teus dias.

Mensagem do Espírito Camilo psicografada pelo médium J. Raul Teixeira em 30/12/2002