Tendo vivido mais de meio século, sei que tenho menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. E assim me vejo como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas quando percebeu que restam poucas, rói o caroço.
Pois é. Eu também já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos, como ganhar sozinha o prêmio da Mega Sena e sair por ai desbravando o mundo. Não participarei de campanhas que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero ser convidada para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Nem fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. Como disse Mário de Andrade: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Eu aprendi que são aqueles pequenos acontecimentos diários que fazem a vida tão espetacular.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. Aliás, amar de verdade, sem interesses outros, sem esperar recompensas, sem causar dor a outras pessoas, é o essencial.
E o essencial faz a vida valer a pena!
Nenhum comentário:
Postar um comentário