terça-feira, 21 de agosto de 2012

Corpos com recheio

Por Claudia Penteado

 Outro dia assistia a um episódio de Two and a Half Men (série americana) que mostrava uma mulher reatando com o ex-marido aliviada, ávida por poder voltar a simplesmente deitar e dormir ao lado de um homem, despreocupadamente. Durante o período em que estivera separada, ela teve um namorado uns 20 anos mais novo. Aos quarenta e tantos, chegara ao ponto da absoluta exaustão de uma série de rituais que, segundo ela, vinham no pacote das delícias carnais do relacionamento com o rapaz. Um deles era acordar meia hora antes dele para se maquiar. Outra regra essencial para o bom andamento da relação: nunca, jamais, usar o banheiro com ele por perto ou produzir quaisquer sons intestinais desagradáveis. Isso costuma ser uma regra geral em qualquer casório, mas perdoa-se alguns deslizes eventuais num casamento longevo. No namoro com o gato esculpido em aulas de power ioga e escalada, nem pensar.
Outra tensão permanente: jamais deixa-lo vê-la caminhando de costas, despudoradamente, revelando o bumbum já não tão durinho de mulher madura. Ao relatar o drama ao seu ex-recém-resgatado-marido-maduro, ele, saudoso da mulher que considera linda, reage: “mas o que há de errado com seu traseiro?”. Ela se convence ainda mais da saudade que sentia do ex-marido, olhos marejados. E fazer sexo todos os dias? “Há mulheres que fariam qualquer coisa por isso, mas…havia dias em que tudo o que eu queria era vestir uma calcinha bem velha, um moleton surrado, deitar e dormir”, queixou-se.
A graça desse episódio é não só reconhecer a dor e a delícia dos relacionamentos, em que o equilíbrio é uma medida utópica, mas também a grande loucura que se apossa de nós, mulheres, na busca enlouquecida pela juventude eterna. Muitas vezes nos enjaulamos nos modelos pré-concebidos daquilo que provoca ou mata o tesão nos homens. Simplesmente não conseguimos ver encanto algum nos defeitinhos e nas imperfeições que estamos cansadas de avistar, porque não, em nossos próprios parceiros. Neles, não nos incomodam. Estamos convencidas de que nossos homens – tenham eles a idade que tiverem – contarão os furinhos da nossa pele, as marquinhas das estrias,  as ruguinhas que despontam ao redor dos nossos olhos ou aquelas benditas gordurinhas que não conseguimos enxugar na malhação.
A vida pode ser mais simples. E é. O mais provável é que eles – nossos parceiros ou parceiras – amem nossos corpos profundamente, simplesmente porque eles nos pertencem e não a qualquer outra mulher, e são parte do que nos torna únicas, insubstituíveis. E que não se importem se não sabemos sambar, não temos 1,70m ou o cabelo esvoaçante da Gisele Bünchen. E fiquem loucos com um certo jeito de beijar a nuca, massagear os pés, preparar um sanduíche no meio da madrugada, contar como foi o dia. Corpos têm recheios essenciais: nós mesmas. O mais importante é, sempre, respeitar o próprio desejo e não se deixar violentar somente para agradar o outro. E não esquecer, jamais, que relacionamentos são construções delicadas e que demandam muito carinho e sobretudo respeito mútuo. Não importa o que se diga, ando mesmo defendendo que cuidemos bem mais do recheio. Sem esquecer, claro, do bumbum, nem pensar deixá-lo despencar deliberadamente! 
 
http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7

Nenhum comentário:

Postar um comentário