Construir
um pomar é transformar terra em sabor. Escolher as sementes já com a
água na boca do que se espera colher no futuro. Quem planta conta com a
colheita. É fato. Espera um retorno.
Vejo acontecer no consultório. As pessoas escolhem o parceiro como
se procurassem apartamento. Já compram contando com a reforma. A
pessoa é daquele jeito. Aceitou ou não aceitou?
Aceitam ficar com um coqueiro e passam a vida reclamando porque ele
não dá manga. O que poderia ser doce sabor é provado como água salobra.
Todos nós temos alguma coisa para dar. Assim é também com o limão.
Limão é boa fruta. Mas não é uma laranja lima. Nunca será. Faz
limonada, caipirinha. É rico em vitamina C. Inigualável como tempero.
Possui várias finalidades. Tem seu próprio sabor, e pode ser
ótimo. Mas uma triste sequência de sustos e desilusões entre o que se
planta e o que se espera colher desqualifica o limão, o reduz a zero.
É preciso saber receber, validar, reconhecer o valor do parceiro que
está ao seu lado. Cada um é único. Com seus defeitos e qualidades.
Com famílias e casais muitas vezes esse mal entendido é o início do fim.
Esperar que o outro seja diferente de sua essência inviabiliza
qualquer relação. Mina a parceria. Cria pequenas rachaduras, discretas
infiltrações que vão aparecendo aqui e ali nas cobranças diárias.
Muitas vezes se acha mais prático nem notar, fingir que não vê. Mas
elas estão ali. E tendem a aumentar.
A dinâmica é essa. Um demonstra seu carinho, mas não exatamente da
forma esperada pelo outro. Então não é bem recebido. Esse tipo de
expectativa vai cavando um abismo entre as pessoas. Reclamam as que
presenteiam, porque se entregaram e não foram bem aceitas na forma como o
fizeram. As que recebem, porque não reconhecem como presente aquilo
que lhes foi dado. E continuam na falta, ressentidas, distantes.
Muitos relacionamentos se desfazem assim. Fica cada um de um lado,
ferido, magoado. Como se falassem línguas distintas, vão interrompendo a
comunicação do amor. O que era para ser um pomar vira terreno baldio.
A relação vai se desfazendo ponto por ponto como uma trama de tricô
rasgada. Um bordado que vai soltando a linha e desfazendo seu desenho
original. O que era figura, agora se desfigura. O amor vai saindo aos
poucos, pela porta da frente. Sem que nada seja feito ou percebido.
Quando a porta bate, a ficha cai.
Mas, aí já foi. Muitas vezes, é tarde demais.
Relação é parceria. Cada um dá o que pode, o que tem. Cada um de uma
forma própria saberá de falar do seu amor. Porque amor é rio, tem que
desembocar em algum lugar. Onde? É preciso boa vontade em descobrir,
mapear seus afluentes. Em vez de ficar esperando que venha só como a
gente quer receber. Ou se fechar na espera vã de que o outro adivinhe
nosso desejo. É preciso saber qual é a forma que cada um tem de
demonstrar o que sente.
Plantação depende de boa parceria entre a terra e a semente. Que a
terra se deixe fecundar. Que a semente confie para se abrir.
Relacionamento é assim. É cuidado, investimento, coragem e paciência no
tempo que leva para brotar.
Relação é bumerangue. O que você recebe é o retorno do que
cultivou. É via de mão dupla. O que vai, em algum momento volta. É
certo.
O pomar da vida funciona assim: Plantou doce, tem doce. Plantou cactos, tem espinho. Plantou comigo ninguém pode, tem veneno.
Seu pomar é o espelho da alma. Pense a respeito. Que árvore você é? O que você planta no seu jardim?
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