Eu estou em crise. Assim como a economia europeia, a Síria ou a
política de combate a enchentes no Rio. Em épocas assim, as pessoas
perguntam o que está acontecendo, como tudo começou, qual a perspectiva
de melhora. Contando a mesma história para muita gente e passando a vida
a limpo, numa espécie de sessão de terapia contínua, o resultado pode
ser bastante confuso: não percebi o que estava acontecendo? Errei? Não
me controlei? Não sou madura o suficiente?
De todo esse período, venho sistematizando algumas ideias, que vão
contra a corrente dos livros de autoajuda, mas que me parecem mais
atadas à minha realidade do que pregam os gurus do autocontrole e da
“vida bem resolvida” (e aqui crio uma rima pobre por falta de sinônimo
melhor para a expressão). Eu não espero que você, caro leitor, concorde
com todas – nem mesmo com uma delas. O objetivo deste texto, assim como
todos os outros deste blog, acredito, é compartilhar pensamentos e
propor reflexões. Certo ou errado não são os tópicos aqui.
“É preciso ser forte”: como disse uma amiga minha,
eu quero é ser fraca. Chorar, sofrer, desabafar fazem parte das rotinas
humanas e não é vergonha nenhuma dizer que a dor está muito forte e que
está difícil de segurar. Deixar lágrimas escorrerem em público, querer
passar um dia triste, sentir que está sem chão naquele momento não fazem
de você uma pessoa frágil e que não agradece pelos inúmeros momentos de
felicidade que vive. Do mesmo jeito que o corpo dá sinais de alerta,
com dores, para nos dizer que há algo errado, nossa mente e nossas
emoções mostram que há pontos complicados na vida. E, assim como o
físico, não há cura para tudo – mas também há sempre algo que ajuda a
diminuir o peso. Em todos os casos, buscar tratamento – e ser firme
nele, até os últimos recursos – também é sempre possível.
“Viver não é complicado. Somos nós que complicamos a vida”:
mentira deslavada (ou sem-vergonha, que é um sinônimo mais saboroso,
mas muito menos conhecido da palavra). Viver é complicado, sim. Amar
alguém, e ser amado por ela, não torna as relações fáceis. Escolher uma
profissão e gostar do que faz não evita que queiramos jogar a toalha às
vezes. Amar os filhos não anula erros na criação. Amar os pais não
impede que possamos ofendê-los quando queremos que eles se cuidem. Ver
avós morrendo, seguindo a trajetória natural da vida, não torna a
separação menos sofrida. Somos bichos complicados, inseguros, com medo
de fazer escolhas erradas, traumatizados pelos eventos do passado. Isso
implica que vamos errar, ferir, ofender, distorcer, recuar, mudar,
tantas vezes quantas forem necessárias no meio do caminho. Pedir
desculpas não vai adiantar, mas também mal não irá fazer. Dizer que
aquilo serviu de aprendizado para não fazer de novo é meia verdade,
porque sempre podemos errar novamente – mas, como meia verdade, isso
também tem, obviamente, seu lado genuíno.
“Seja firme nas suas decisões”: não sei se acontece
com todos, mas às vezes eu passo longos minutos olhando o cardápio,
penso seriamente em que prato pedir, faço a escolha confiante e, quando
chega a refeição, percebi que me enganei: o molho não era o que eu
pensava. Seria ótimo se longos momentos de reflexão garantissem a
decisão mais acertada, mas, se isso não é assim nem com a comida, que
dirá com as emoções, com as relações, com os gostos. Eu detecto em minha
vida algumas certezas: amo algumas pessoas, aprecio fazer determinadas
coisas, quero cumprir certos objetivos (de vida profissional e de
mudança ou evolução de personalidade). São pontos que não têm mudado com
o tempo, mas, para continuarem assim, elas precisam ser cultivadas a
cada novo dia. Então, eu não sou firme com as minhas decisões: eu as
repito todo dia. Entende a diferença?
“Mantenha o autocontrole”: adoraria ser capaz disso,
o tempo todo. Se algum leitor consegue, por favor, avise. Eu busco
evoluir, e nesse período crítico passei por várias situações em que
gostaria de ter tido a esperteza de me enfiar em um buraco e esperar a
raiva e o desespero passarem antes de fazer alguma coisa. Estou
cotidianamente buscando melhorar nesse sentido, mas confesso que
retrocedo várias vezes ou cometo o mesmo erro outras tantas, ainda que
eu reflita, ore, faça terapia, escreva sobre isso… Se houver algum ser
humano que consiga nunca dar uma resposta mais seca; nunca dizer algo
desnecessário e que machuque; ou mesmo nunca hesitar em dizer o que tem
de ser dito no momento, por favor, me ensine o caminho. Se houver um
modo mais fácil de ser humano, imperfeito, emotivo, confuso e inseguro,
serei a primeira a segui-lo. No momento, apenas sigo sendo humana,
ciente do que é sê-lo, mas sem a certeza de que conheço tudo da minha
própria humanidade.
Juliana Doretto- jornalista
texto publicado no blog Mulher 7 X 7
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